Wednesday, February 07, 2007

Donald Kagan e as guerras


Donald Kagan é um historiador americano de origem lituana nascido em 1932. Professor de História da Grécia Antiga na Universidade de Yale, Kagan escreveu um notável estudo sobre a Guerra do Peloponeso em quatro volumes, publicado em 1969-1987. Embora uma versão resumida dessa obra tenha sido lançada no Brasil em 2006 (A Guerra do Peloponeso, Editora Record), seus trabalhos são poucos conhecidos ou discutidos aqui. O mesmo ocorre com os escritos do seu filho, Robert Kagan (nascido em 1958), um destacado analista político, que tem um pequeno mas excelente ensaio traduzido para o português (Do Paraíso e do Poder – Os Estados Unidos e a Europa na Nova Ordem Mundial, Editora Rocco, 2003). Donald Kagan também é autor de um livro formidável sobre as origens das guerras – On the Origins of War and the Preservation of Peace (Anchor Books, 1996). Nesse livro, Kagan analisa as origens da Guerra do Peloponeso, da Segunda Guerra Púnica, da Primeira Guerra Mundial, da Segunda Guerra Mundial e da Crise dos Mísseis de Cuba, que quase desencadeou a Terceira Guerra Mundial. Na Introdução desse estudo, ele faz algumas reflexões sobre o poder e sua projeção internacional sob a ótica da teoria realista. Um resumo dessa Introdução, com adaptações, segue abaixo:

1. O fim das guerras mundiais?

O colapso da URSS em 1991 encerrou a perigosa rivalidade bipolar de 50 anos. Para muitos analistas, esse acontecimento inaugurou uma nova era de segurança, prosperidade e paz, resultado da vitória do Ocidente sobre o Leste, da democracia sobre a ditadura comunista, do livre mercado sobre o dirigismo econômico. Uma paz duradoura agora seria possível porque: (I) a expansão do livre mercado e das comunicações, integrando economicamente os países no processo de globalização, tornaria improvável ou impossível uma grande guerra entre as potências; (II) a extensão da democracia pelo mundo tornou-o mais pacífico, haja vista que as democracias não lutaram entre si na modernidade; (III) a nova balança do poder deixou as potências satisfeitas com o seu lugar no mundo; (IV) a existência dos arsenais nucleares, com capacidade de retaliação, impedem guerras generalizadas entre grandes potências; (V) o triunfo do liberalismo sobre o socialismo encerrou os grandes conflitos ideológicos.
Mas esse otimismo existiu no passado em outras conjunturas, como no final do século XVIII, no século XIX e no início do século XX, quando também se dizia que o comércio e os regimes representativos seriam barreiras contra as guerras. Contudo, em 1792-1815, todas as grandes potências da Europa foram envolvidas nas guerras da Revolução Francesa e da Era Napoleônica, e em 1914-1918, todas as grandes potências industriais lutaram na Primeira Guerra Mundial.

2. O otimismo pacifista ocidental

Um aspecto cultural fundamental do Ocidente moderno é a crença de que os seres humanos podem modificar e controlar o ambiente físico ou natural e a natureza humana para melhorar as condições de vida. Essa crença tem sua origem na (I) Revolução Científica dos séculos XVI-XVII, que iniciou a crença de que a natureza poderia ser manipulada com esse propósito, e na (II) Revolução Intelectual do século XVIII (o Iluminismo), que desenvolveu a idéia de que a sociedade e o comportamento do indivíduo poderiam ser adaptados para criar o progresso, a paz e a prosperidade. Como a natureza, os povos e as instituições foram vistas como infinitamente maleáveis, exigindo apenas inteligência, boa vontade e determinação para serem aperfeiçoadas.

3. O grande equívoco

A idéia de que a “Era das guerras entre as potências” acabou foi ou é defendida por otimistas (argumento das vantagens do comércio e da democracia) e por pessimistas (argumento do temor da destruição mútua). No entanto, esse raciocínio ou conclusão está errado. Esperando e acreditando no progresso, ambos esqueceram que a guerra faz parte da experiência humana desde tempos pré-históricos. Em 1968, Will e Ariel Durant calcularam que houve apenas 268 anos livres de guerras nos 3421 anos anteriores. Os antigos gregos tinham consciência da constância da guerra. Ao contrário deles, no entanto, o mundo moderno falhou em compreender as causas da guerra. Nossa época procurou as causas e origens das guerras em forças impessoais: (I) na monarquia, aristocracia e a antiga índole guerreira que as envolvia; (II) na luta de classes; (III) no imperialismo; (IV) na corrida armamentista: (V) no sistema de alianças etc.

4. Poder

Os estudiosos modernos mais astutos concluíram que algo mais fundamental gera as guerras: a competição pelo poder. O ilustre historiador Michael Howard, no livro The Causes of War (1983),observou que “em 1914 a maioria dos alemães, e em 1939 quase todos os britânicos, sentiram-se justificados a irem à guerra não por causa de alguma questão específica que poderia ser resolvida pela negociação, mas para manter o seu poder antes que ficassem isolados, tão impotentes, que não lhes restaria nenhum poder e teriam que aceitar uma posição subordinada dentro de um sistema internacional dominado por seus adversários.”
Mas o que é o poder? Poder é a habilidade de impor a sua vontade sobre outro, em geral pela força. Isso não é necessariamente ruim porque o poder é em si neutro. Na verdade, poder é a capacidade de atingir fins desejados, bons ou maus. Ele também é a capacidade de resistir às exigências e pressões de outros. Nesse caso, o poder é fundamental para se obter e preservar a liberdade.

5. Realismo e neo-realismo

O poder no nosso mundo é essencial e a disputa por ele é inevitável. Esse ponto de vista é básico entre os cientistas políticos modernos realistas e neo-realistas que estudam as relações internacionais. Os realistas acreditam que todos os Estados e nações buscam o máximo de poder possível. Para eles, o conflito gerado pela busca ilimitada do poder só termina quando uma potência domina todas as outras ou quando o medo recíproco gera uma paz. Os neo-realistas afirmam que os Estados buscam não o poder em si ou a dominação, mas a segurança que, por sua vez, requer poder. Eles têm uma visão menos assustadora porque deixam a esperança de que sistemas podem ser construídos e pessoas educadas de maneira a controlar o poder, fornecendo segurança a todos sem uma luta interminável, embora nenhum sistema tenha alcançado isso ainda. Para os neo-realistas, os Estados buscam o poder para preservar as coisas boas que eles possuem na paz e na segurança.
A maioria dos estudiosos dessa questão assume que os Estados buscam o poder para alcançar objetivos práticos e tangíveis: riqueza, prosperidade e liberdade de interferência externa. Mas a extensão dos objetivos que levam um povo a ir à guerra é muito ampla e nem sempre tão prática. De acordo com Geoffrey Blainey (The Causes of War, 1973), as causas das guerras são variedades do poder: nacionalismo, expansão ideológica, proteção de povos irmãos em terras adjacentes, desejo de mais comércio e territórios, vingança de uma derrota ou insulto, fortalecimento nacional ou independência, desejo de impressionar ou cimentar alianças. Mas a lista não unicamente de variedades do poder, mas também inclui objetivos pelos quais se procura o poder.

6. Tucídides

Tucídides, o antigo historiador grego, forneceu uma explicação clara, mais profunda e compreensiva das razões dos Estados guerrearem: ele entendeu que era competição armada pelo poder. No seu famoso livro, História da Guerra do Peloponeso, no igualmente famoso trecho do Diálogo Meliano, os atenienses afirmam que a busca ilimitada do poder é natural, tanto nos céus como na terra. Segundo Tucídides, as pessoas vão à guerra pela “honra, medo e interesse”. Que o medo e interesse causam guerras não surpreende o leitor moderno, mas o papel da honra pode soar estranho. Se entendida como fama, glória, renome ou esplendor, parece coisa do passado, anacrônica. No entanto, entendida como respeito, estima, dever justo, consideração ou prestígio é um importante motivo das guerras no mundo moderno. Nesse sentido, ela é desejável em si mesma, mas também de importância prática na competição por poder. Quando o poder de um Estado aumenta, o respeito e deferência por ele crescem. Mas mesmo quando o seu poder material aparenta continuar o mesmo, na realidade ele declina se as atitudes acerca dele mudarem. Isso acontece mais frequentemente quando um Estado perde a vontade de usar o seu poder material.

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